Transcrições fonéticas e fonológicas: prática

Considerando o objetivo deste blog de compartilhar experiências e conhecimentos, abaixo, segue o trabalho produzido durante a disciplina fonética e fonologia, ministrada pela profa. Valdenice Souza, na Universidade Federal do Amapá.

Importante: use este material exclusivamente para fins de pesquisa. Plágio é crime e nada contribui para o seu desenvolvimento intelectual e profissional.

Introdução: Transcrever é fazer corresponder termo a termo as unidades discretas da língua ou da fala e as unidades gráficas. Baseado nessa concepção, esse trabalho tem como principal objetivo observar as idiossincrasias presentes na fala de pessoas de diferentes regiões que possui escolaridade ou não, procurando descrevê-las a partir de um contexto de fala espontânea, através das transcrições fonéticas e fonológicas, observando também os vocábulos fonológicos bem como as características pessoais do falante entrevistado.

Metodologia: foram selecionados diversos tipos de falantes para que cada grupo pesquisasse e entrevistasse um e pudesse transcrever a fala. Nesse trabalho tem-se a transcrição da fala de uma pessoa do interior não escolarizada. Para melhor entendimento, visto que não será apresentado o material gravado, serão feitos os seguintes passos, respectivamente:

  • Transcrição ortográfica
  • Transcrição fonética
  • Transcrição fonológica
  • Marcação do vocábulo fonológico
  • Verificação das características próprias do falante

Seguindo a metodologia proposta, foi entrevistada a Sra. Rosa Maria Costa de Figueiredo, 46 anos, que reside há 21 anos no estado do Amapá, na cidade de Santana. Dona Rosa nasceu no Município de Chaves, no estado do Pará, onde morou até os seus 17 anos. Segue abaixo a entrevista realizada no dia 18/05/2011, na residência da mesma:

1) De qual cidade e estado a senhora veio?

R: Eu vim do Pará, do município de Chaves.

Transcrição fonética:

[ ew ]  [ vĩ ] [ du ] [ pa’ra ] [ du ] [ muni’sipiw ] [ ʤi ] [ ’ʃaviʃ ]

Transcrição Fonológica:

/ ew / / vĩ / / do / / pa’ra / / do / / muni’sipiw / / de / / ‘ʃaves /

Vocábulos fonológicos:

/ dopa’ra / // / de’ʃaves /

 2) Que aspecto, fato, ou momento da sua vida que a senhora acha que foi bem marcante?

R: Olha, eu não tive infância lá, eu me casei muito nova né, com dezessete anos, aí vim para o..para o… para lá para o Ganhoão onde meu marido morou e lá eu  tive meus filhos, mas não tive infância, infância nenhuma, infância não tive. Depois que eu vim me embora para cá só mesmo para ter filhos, trabalhar e não tive infância, não estudei.

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3) A senhora trabalhou durante sua infância?

R: Não, não Nunca trabalhei, não trabalhava, meu pai que me sustentava, era meu pai e minha mãe.

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4) Que dificuldades a senhora enfrentou antes de casar e sair da sua cidade?

R: Eu tinha dificuldade que eu não estudei né, porque eu morava no interior, não estudei nada, não tinha onde estudar, não tinha escola onde eu morava, não estudei nadinha, estudei só com a minha mãe o que ela sabia, o pouquinho que ela soube ela me ensinou, foi.

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Análise dos dados: Diante das transcrições feitas, e após escutar-se minuciosamente a gravação, é possível perceber algumas características naturais do falante, por exemplo:

  • Em algumas palavras há apagamento do ditongo a partir da supressão da semivogal.

Infância → / ĩ’fãsya / → [ ĩ’fãsa ]

Depois → / de’poys / → [ de’poʃ ]

Ensinou → / ẽsi’now/ → [ ẽsi’no ]

  • Assimilação dos fonemas vocálicos / e / pelo / i / e do / o / pelo / u /.

Estudei → / estu’dey / → [ iʃtu’dey ]

Dezessete → / deze’sƐte / → [ ʤize’sƐʧi ]

Com → / kõ / → [ kῦ ]

Obs.: esse processo geralmente ocorre devido ao ponto de articulação dos fonemas consonantais coincidirem com posição/altura da língua na produção dos fonemas vocálicos, então, para o falante é mais rápido e mais fácil produzir determinado som, mesmo que de maneira involuntária.

  • Palatalização dos fonemas / t / e / d /, característico do sotaque nortista:

Tinha → / ’tĩŋa / → [ ’ʧĩŋa ]

Dificuldade → / difikul’dade / [ ʤifiku’daʤi ]

Dezessete → / deze’sƐte / → [ ʤize’sƐʧi ]

Conclusão: após a realização desse trabalho, pode-se verificar as variações presentes na fala da entrevistada a partir da comparação entre as transcrições fonéticas e fonológicas, bem como os processos idiossincráticos ocorridos durante a produção dos fonemas. Assim, obtém-se como resultado que essas variações ocorrem a partir do contexto de aquisição da linguagem do falante.

Referência bibliográfica: material previamente cedido pela Prof.ª Valdenice Souza para acompanhamento de suas aulas.

Jennife Farias

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Sequência didática para trabalhar variações linguísticas

Para quem ainda não tem a menor ideia de como levar o assunto “variações linguísticas” para a sala de aula, seja por achar complicado demais ou por achar que é um assunto polêmico (entre outros motivos), disponibilizo abaixo uma sequência didática que foi produzida durante a disciplina Morfossintaxe Através dos Textos, ministrada pela Profa. Dra. Martha Zoni, na Universidade Federal do Amapá.

Abaixo, seguem apenas imagens da SD. Quem quiser o material completo, entre em contato pelo meu e-mail disponibilizado no perfil.

A SD foi feita para os professores, destinada a ser aplicada em turmas de 9º ano do ensino fundamental.  Aborda questões linguístico-gramaticais a partir da reflexão sobre as diversidades linguísticas, destacando o gênero textual poema.

Caso seja usada para fins de pesquisa e/ou aplicação em sala, não esqueça de citar os autores nas referências.

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Livro didático de Língua Portuguesa: o processo de escolha

Os alunos das escolas públicas recebem, a cada ano, vários livros didáticos de diferentes disciplinas para subsidiá-los em seus estudos. Em alguns casos, são seus únicos objetos de leitura e pesquisa.

Centrando essa discussão para área de Língua Portuguesa, há ainda uma sobrecarga maior quanto importância desse material. Considerando a precariedade das bibliotecas, até mesmo a falta delas em muitas escolas públicas brasileiras – mais de 70%, segundo dados veiculados no site da revista Veja* -, o livro didático de língua portuguesa (LDP) carrega para si a responsabilidade de oferecer textos diversificados, uma gama de gêneros textuais dentro das novas perspectivas de ensino para melhorar o aprendizado dos alunos, conforme orientam os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa.

Para que os livros cheguem às escolas, os professores precisam escolher uma obra dentre muitas outras inscritas pelas editoras no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Essas obras passam por avalições segundo critérios estabelecidos pelo Ministério da Educação, através do PNLD. Esse processo pode parecer simples, mas é o mais importante. O programa disponibiliza aos professores um Guia que contém as resenhas dos livros selecionados para que eles avaliem qual obra é a mais adequada para usar em suas turmas.

No entanto, o que era para ser uma escolha criteriosa, informativa e muitas vezes formativa, não recebe a importância necessária. Os LDPs ficam em posse das coordenações pedagógicas ou expostos na bibliotecas, enquanto os professores definem o que querem usar na sala de aula.

Uma escolha inadequada de LDP pode ser um grande empecilho nas aulas em vez de ser auxílio. Por isso, é necessário muita atenção nesse processo. Abaixo algumas dicas para fazer uma boa escolha:

– Em posse do Guia do Livro Didático, leia atentamente as resenhas dos livros indicados pelo MEC. Nela contém a visão geral do LDP, sua descrição quantos aos pontos fortes e fracos da obra e análise por eixo de conhecimento;

– Fazer um planejamento com objetivos pretendidos ao longo do ano quanto ao ensino de Língua Portuguesa e compara-los aos objetivos presentes nas obras indicadas, analisando qual se identifica mais com seu planejamento, ou seja, o que possui o perfil da sua turma;

– Reunir-se com os outros professores para efetivar uma escolha de forma democrática, apoiando-se no projeto político pedagógico (PPP) da escola.

Fique ligado no portal do MEC e acompanhe os editais. Faça uma boa escolha!
Site: http://www.fnde.gov.br/

Outras dicas você pode encontrar nos sites:

http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/como-escolher-bem-livros-didaticos-677011.shtml

http://educador.brasilescola.com/orientacoes/escolha-correta-livro-didatico.htm

_____________
* http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/mais-de-70-das-escolas-publicas-nao-tem-biblioteca)

Jennife Farias